Quando ainda cursava o bacharelado, resolvi aprender a tocar algumas músicas no violão. A primeira delas, escolhida e indicada por um amigo do Partido Comunista, que na ocasião era também meu professor, foi a famosa "Para não dizer que não falei das flores". Foi originalmente entoada por Geraldo Vandré, num festival da canção em que foi preso para averiguações e do qual nunca mais retornou o mesmo.
Confesso que ainda hoje me emociono com a música, especialmente na versão ao vivo. Mas devo declinar a razão pela qual me lembrei da música: o tempo.
Naquela época, a escolha da música não foi uma coincidência: para quem frequentava passeatas, atos públicos, reuniões de partido comunista e do MST, nada mais normal do que não esperar, mas fazer a hora... É o refrão, "quem sabe faz a hora, não espera acontecer..."
Depois de aprender a tocar a música, e depois de me esquecer de como se toca a música, talvez hoje a canção que escolheria para dedilhar o violão fosse outra.
O tempo não pode ser feito pelo ser humano. Vã ilusão se acreditar que podemos fazer o tempo, até porquê o transcorrer dos efeitos do tempo no outro não depende de nós.
O tempo não precisa ser feito, ele precisa ser dado. "Dar um tempo", mais do que uma expressão corriqueira significa respeitar nossos limites e o limite do outro: o descanso, o perdão, a maturidade, a mudança, a decisão, o nascimento e a morte - de ideias, desejos e pessoas - estão inexoravelmente ligadas ao transcurso do tempo que não pára e que não se controla.
E o dar tempo ao tempo? Se não se pode fazer a hora, muito menos se dar tempo ao tempo! Pura arrogância humana: desde quando nós, reles mortais, temos o poder de dar tempo ao tempo?
Aguardar o tempo... Como aguardar o tempo? Cuidando de nós mesmos! Dentro das nossas parcas possibilidades! Neste ponto, imagino o que faz uma espécie marinha rústica, diante do movimento das máres: simplesmente acede e luta para sobreviver.
Somos escravos do tempo, menos porque não temos tempo para nossas coisas e muito mais pelo fato de que muitas vezes não agimos com sabedoria diante da necessidade de deixar que o tempo transcorra do seu modo.
Lutamos internamente, nos digladiamos contra nós mesmos, nos debatemos e indesejamos irados o envelhecimento do corpo, as filas, os engarrafamentos, o comportamento do amigo que não atende o celular, o silêncio do amante e o fim da vida terrena do ente querido.
Ao invés de lutarmos contra o tempo, deveríamos nos abraçar a ele, senti-lo e ouvi-lo. Não fazer a hora, nem mesmo esperar que ela aconteça. Simplesmente aproveitá-la. Questão de respeito: com o tempo, com o outro e com nós mesmos.
Para fechar, neste início de semana, deixo vocês com lindas canções sobre o tempo:
http://letras.terra.com.br/pato-fu/30233/http://letras.terra.com.br/maria-gadu/1969421/
http://letras.terra.com.br/geraldo-vandre/46168/
