domingo, 1 de abril de 2012

Tempo mano velho

Quando ainda cursava o bacharelado, resolvi aprender a tocar algumas músicas no violão. A primeira delas, escolhida e indicada por um amigo do Partido Comunista, que na ocasião era também meu professor, foi a famosa "Para não dizer que não falei das flores". Foi originalmente entoada por Geraldo Vandré, num festival da canção em que foi preso para averiguações e do qual nunca mais retornou o mesmo.
Confesso que ainda hoje me emociono com a música, especialmente na versão ao vivo.  Mas devo declinar a razão pela qual me lembrei da música: o tempo.
Naquela época, a escolha da música não foi uma coincidência: para quem frequentava passeatas, atos públicos, reuniões de partido comunista e do MST, nada mais normal do que não esperar, mas fazer a hora... É o refrão, "quem sabe faz a hora, não espera acontecer..."
Depois de aprender a tocar a música, e depois de me esquecer de como se toca a música, talvez hoje a canção que escolheria para dedilhar o violão fosse outra.
O tempo não pode ser feito pelo ser humano. Vã ilusão se acreditar que podemos fazer o tempo, até porquê o transcorrer dos efeitos do tempo no outro não depende de nós.
O tempo não precisa ser feito, ele precisa ser dado. "Dar um tempo", mais do que uma expressão corriqueira significa respeitar nossos limites e o limite do outro: o descanso, o perdão, a maturidade, a mudança, a decisão, o nascimento e a morte - de ideias, desejos e pessoas - estão inexoravelmente ligadas ao transcurso do tempo que não pára e que não se controla.
E o dar tempo ao tempo? Se não se pode fazer a hora, muito menos se dar tempo ao tempo! Pura arrogância humana: desde quando nós, reles mortais, temos o poder de dar tempo ao tempo?
Aguardar o tempo... Como aguardar o tempo? Cuidando de nós mesmos! Dentro das nossas parcas possibilidades! Neste ponto, imagino o que faz uma espécie marinha rústica, diante do movimento das máres: simplesmente acede e luta para sobreviver.
Somos escravos do tempo,  menos porque não temos tempo para nossas coisas e muito mais pelo fato de que muitas vezes não agimos com sabedoria diante da necessidade de deixar que o tempo transcorra do seu modo.
Lutamos internamente, nos digladiamos contra nós mesmos, nos debatemos e indesejamos irados  o envelhecimento do corpo, as filas, os engarrafamentos,  o comportamento do amigo que não atende o celular, o silêncio do amante e o fim da vida terrena do ente querido.
Ao invés de lutarmos contra o tempo, deveríamos nos abraçar a ele, senti-lo e ouvi-lo. Não fazer a hora, nem mesmo esperar que ela  aconteça. Simplesmente aproveitá-la. Questão de respeito: com o tempo, com o outro e com nós mesmos.  
Para fechar, neste início de semana, deixo vocês com lindas canções sobre o tempo:
http://letras.terra.com.br/pato-fu/30233/
http://letras.terra.com.br/maria-gadu/1969421/
http://letras.terra.com.br/geraldo-vandre/46168/

terça-feira, 27 de março de 2012

Trilha sonora do crime

Adoro brincar com as músicas... Bom para aprender e memorizar... então, lá vai.
Depois podemos discutir qual é o tipo penal...

Ronda - Maria Bethânia
Geni e o Zepelin - Chico Buarque
Me Lambe - Raimundos (antes das alterações nos crimes contra a liberdade sexual)
Faz uma loucura por mim - Alcione
Não enche - Caetano Veloso
Pai Véio 171 - Bezerra da Silva
Kátia Flávia - Fausto Fawcett
Tem coca aí na geladeira - Bezerra da Silva
Infinita Highway - Engenheiros do Hawaii
Camila, camila - Nenhum de Nós

quinta-feira, 15 de março de 2012

O caos e a ordem nos cursos de Direito

Na semana passada, estava dando aulas numa turma de terceiro período de Direito, acerca das escolas penais. Conteúdo que exige abstração, base de Filosofia e História. Era o segunda horário do turno noturno, numa sexta-feira calorenta. Os barzinhos da Prudente de Morais lotados, o burburinho das promessas da sexta já invadiam o ambiente.


De repente, sem mais nem menos, já nos últimos 2 minutos, um aluno inicia uma discussão sobre o caos e a ordem. Lembrou-nos que o trânsito da China e da Índia, considerados caóticos, na verdade, apresentam bem menos acidentes do que o nosso, teoricamente mais organizado (ou aparentemente mais organizado)... E daí cita Leonardo Boff. Eu, a professora, fui imediatamente alçada, alegre e satisfeita, à condição de aluna. Parte da turma já se levantava, saindo, dando de costas, e saindo, afinal "a aula tinha acabado" e "aquilo não ia cair no concurso".




Temos a mania de ordem e para nós o organizado é o bom e o melhor. O que não seja sistematizado não está á altura de nossas aspirações, não vai funcionar, não vai trazer sucesso e assim ninguém entra no "mundo de Caras". Até Deus ao criar o mundo foi organizado: primeiro dia, segundo dia, quase uma agenda de gestão do projeto "Plantea Terra"!!!!



E daí, a vida fica mais clara, mais objetiva... E mais burra. Obviamente, as pessoas ficam mais tristes, mais neuróticas, mais chatas e mais óbvias.






Naqueles últimos minutos da organizada aula de sexta-feira, eu e o aluno, com a participação de alguns poucos ouvintes, quebramos a ordem- do plano de ensino, do planejamento de aulas. Fomos desordeiros.






Quisera eu que os cursos de Direito e suas aulas e seus alunos e seus instituições-empresa fossem mais adeptas ao caos. Que pudéssemos romper com o padrão do falatório, que pudéssemos nos preocupar mais em ler e em discutir, do que em lançar notas e faltas no sistema.






Queria mais Índia nas nossas escolas. O nosso cérebro é um emaranhado de conexões caóticas, por qual motivo devemos "organizar" nossos pensamentos, quando o que mais nos faz humanos e felizes é desorganizá-los?






Liberdade e caos para todos nós!

quarta-feira, 7 de março de 2012

O caso do frango assado

O caso do frango assado


Faz tempo que quero contar este caso. Nada melhor do que contá-lo aqui, às vésperas do "dia internacional da mulher".

Era uma tarde de domingo, daquelas em que as famílias se dividem entre as diferentes atividades: o marido no buteco da esquina, conversando e jogando buraco. As crianças na sala, com a TV ligada e brincando de alguma coisa. E a mulher na cozinha preparando o almoço: frango assado e macarronada.

O marido, de repente, chega em casa. Atravessado, com o sangue fervendo de tanta vida morna. E enxerga no fogão aquela mulher envelhecida, magrela, com a saia suja de gordura. Ouve a televisão, olha para as crianças. Volta no terreiro. Pega o machado e pelas costas, atinge a mulher. Olha de novo as crianças escondidas atrás do sofá. Foge.

A mulher, caída: morta. As crianças correm pelo quintal e vão ao barracão dos fundos, onde mora a tia, cunhada da morta., que vai à casa do irmão.

Lá chegando, se encarrega de pegar o frango assado, afinal de contas, era domingo e já estava no hora do almoço.

(caso verídico de um processo de Tribunal do Júri, da comarca de Sete Lagoas)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Voltei para ficar

Queridos e queridas internautas:

Depois de quase ficar entalada, permanecendo por mais de 02 anos no absoluto -  ou quase absoluto - silêncio digital, decidi voltar, como nunca antes, com toda a intensidade, às escritas do blog.

A proposta, agora, é mais do que constituir um espaço para discussão da Criminologia, do Direito Penal e do Processo Penal. A ideia é abrir um espaço para declarações e discussões críticas, sobre os mais diferentes aspectos da vida pós-moderna, globalizada e cada vez menos dialogada, especialmente sobre as nuances que perpassam a (in)existência da justiça, da ética, do respeito ao interesse público e aos direitos humanos.

Queiram também dar ao espaço a tônica das conversas de janela do interior, dos cafés tomados às pressas no meio das tardes... Que possamos dar a nossa interação um tom mais caloroso e estreito.
Estou certa que esta não é uma tentativa frustrada de dar uma finalidade útil ao sentimento de solidão e indignação, ou mesmo de absoluta incerteza e fluidez de tudo aquilo que nos cerca... Percebi que não podmeos permitir que nossos sonhos envelheçam - porque sim, se não cuidarmos, eles envelhecem... Mas esse é um tema para outra postagem!

Abraços,
Viviane